Coabito na ambiguidade da essência
É noite, e no meio de todos os silêncios persegue-me a voz do impossível que me faz sentir perdido do farol, e deixa-me à mercê desta tempestade que é o pensamento e entre a bruma da minha alma e o impudor da natureza, transforma-se-me as dúvidas em certeza.
São ideias sem nexo, no infinito e silencioso caminho para propósitos incompletos, é um destino constantemente abandonado, pela impaciência do Ser Humano, que não sabe ser útil e vive na incerteza do êxtase, mas antecipo-me, e numa sociedade de sensações desencontradas, jogo de uma forma quase normal e instintiva os bocados desta vida contra um ponto de apoio para a inteligência, pois é com a ausência da luz natural, que a lua nos bafeja, de uma forma suave nas esquinas de todas as ruas, e deixa-nos acessível à imaginação o aroma das paisagens, o carinho das flores, a brisa de um sonho … é um privilégio vindo da natureza.
E é nesse privilégio que ressuscito após uma teia de hora alucinadas e cada vez mais estranhas, onde o peso latente na chuva e no vento deste sofrimento, que mesmo a dormir mantém-me acordado, nesta madrugada, onde olho o perfil das artérias do universo.
Interrogo-me, será espanto ou espasmo?
Escuto, será ternura ou luta?
Seja o que for, é de letras, sílabas, palavras, frases que a escrita nasce, escrita essa que há-de ser um grito, e nunca um murmúrio, que será o transporte do Ser Humano para o infinito.
Eu, já não sei qual é o caminho, nem se a vida tem que ser sempre a mesma cruz e os dias sempre os mesmos espinhos, mas neste trilho infindável, acendo os meus olhos à aventura, sacio o meu desejo de ser mais, voo na loucura do meu grito que é ainda maior que o infinito, liberto-me das agonias e assombros próprios das noites escuras, caminho firme e com vigor sem desprezar nem maldizer a dor, dor inútil e vencida pela onda da revolta, que me leva à procura de um sonho, de uma ilusão ou quem sabe, mesmo de um encanto, nesse fantástico reino em que eternamente passo as noites à espera de uma aurora.
Tenho a certeza de que nada servem se for para morrer nesta ansiedade, de querer acabar com o espaço e o limite, que separa a alma do coração, que separa as bocas de se encontrarem, e abrirem o supremo caminho da alegria para viver, e como é uma onda suprema o que me invade, que me faz sentir o pulsar nas veias desse beijo de fogo que a volúpia encerra, resta-me despir a tristeza inútil que me invade, e ascender para alem do que vejo, ir ao mais fundo abismos dos rochedos, onde se encontra escondida a chama dos segredos, mas perco-me nas brumas do desejo, que ateio com a vertigem da ansiedade, que vai para alem da vida e da saudade, mas como são loucos os sonhos, nas suas olímpicas montanhas, ultrapassando as leis universais, devemos abrir-lhes os braços e não deixa-los a soluçar em vão, porque não quero ter pena de não viver todos os sonhos e ilusões, por isso, a minha vida há-de ser alucinada e forte, resumo-a a um beijo…
R.R.